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“Lautari”
designa, na terminologia dos ciganos da Roménia, “aquele
que improvisa”, o músico ambulante que aprende escutando
os mestres. É também a designação escolhida
por este trio de Lisboa, que escolheu, entre todas as formas musicais
disponíveis, aquela que, pelo menos em Portugal, se afigura como
a de maiores dificuldades, tanto em termos de prática como de aceitação
junto do grande público. Formado no ano de 1994, em Lisboa, o grupo
encontra-se neste momento na fase de procura de plataformas de trabalho
viáveis e que se coadunem com as respectivas personalidades, necessariamente
diferentes e, por vezes, contraditórias entre si. Num campo de
manobra cheio de minas e na mira de não poucos preconceitos auditivos,
os Lautari conseguiram para já assegurar a sua subsistência
como grupo, não abdicando das suas convicções a favor
de um impacte mais imediato no consumidor médio. Escolheram a improvisação,
“pelo risco” e “por uma necessidade de comunicação”,
como acontece com José Oliveira, que afirma “não ter
tempo, nem jeito, nem pachorra, para dizer alguma coisa enquanto na simples
posição de intérprete”. José Oliveira,
que, no passado, já tocou com o trompetista Sei Miguel e com Celso
de Carvalho, faz suas as palavras do percussionista inglês Roger
Turner, quando este diz que a música é “uma forma
de guerrilha”, embora faça questão de frisar que,
“já na música barroca, se incluía uma margem
significativa de improvisação”. A audição
de nomes como Evan Parker, Barry Guy, Paul Lytton, Paul Lovens, Derek
Bailey, representantes da free music inglesa dos anos 60 e 70, mas também
Archie Shepp, Ornette Coleman ou Eric Dolphy, foram determinantes na génese
da estética perfilhada pelos Lautari. “A persistência
em fazer este género de música”, diz Carlos Bechegas,
que, entre outros, já tocou com Carlos Zíngaro e numa das
derradeiras formações do Plexus, “deve-se a uma certa
impaciência de alguns músicos para se relacionarem com as
partituras”, a par da exigência de “uma criatividade
específica”, que dá para conseguir “uma certa
dinâmica de resultados, impossível de obter por outros meios”:
“Se se faz uma improvisação que a seguir é
escrita, mesmo se os “virtuosos” forem tocar aquilo –
que são as mesmas notas -, não resulta da mesma maneira
do ponto de vista dinâmico. Quando se improvisa, tem-se a sensação
de encontrar uma coisa pela primeira vez”. Uma opção
que acarreta uma enorme dose de responsabilidade e de entrega total à
música, já que a espontaneidade absoluta e a sintonia perfeita
entre os instrumentistas nem sempre acontecem quando se quer e nos locais
programados. Ernesto Rodrigues fala nos ensaios como “ateliers de
improvisação, ideais para desenvolver a linguagem colectiva
e os métodos de execução instrumentais do grupo.
Depois, no palco, o que é preciso é esquecer tudo isso e
entregar-se por inteiro à inspiração do momento.
Em nome de uma certa virgindade, como se cada nova apresentação
fosse sempre uma primeira vez”. “O que define, entre outras
coisas um bom improvisador”, conclui José Oliveira, “é
a sua capacidade de reacção, em tempo real, no instante,
e de forma adequada e criativa, aos estímulos que recebe de outrem.
E isto é uma forma de composição, composição
instantânea”. Fernando Magalhães
Os registos discográficos de Ernesto Rodrigues têm uma importância
superlativa pelo facto de juntar músicos da segunda de quatro gerações
de improvisadores portugueses, como são o próprio Ernesto
Rodrigues e José Oliveira. “Formados” pelo free-jazz,
estas duas figuras consagradas da nossa improvisação souberam
evoluir com os tempos e adaptar-se à realidade circundante. Deflagração
do fraseado convencional até este desaparecer, acomodamento do
ruído, estruturas “em suspensão” indirectamente
bebidas no minimalismo e directamente no jazz modal, apurado sentido colectivista,
integração engenhosa de silêncios, execuções
pausadas e baseadas na escuta, jogos entre serenidade e inquietação,
atonalismo, politonalismo: estão lá todos os ingredientes.
Rui Eduardo Paes
Ernesto Rodrigues’ music results of two of his personal passions:
free jazz and contemporary "classical" music with a specific
focusing on post-serialism. And it bursts out of a cause embraced in an
almost militant way: improvisation. This may assume various shapes and,
as such theorist of this family of the Art of Sounds as Derek Bailey once
stated, doesn't necessarily have to be experimental. In fact it actually
isn't in most occasions.
Such is not the case with this violinist who's also devoted to instruments
such as viola and soprano saxophone and is now developing skills on India's
Sarangi. His approach depicts each improvisation as an experiment, an
adventure ruled only by the casualty of circumstances and spontaneous
creativity. Add to this the way his musical studies, (classical) formation
and background and also his "audio memories" (Portuguese popular
music, rock, both areas of former activity) melt with his musical taste
and his aesthetic and expressive universes (which meet British and German
schools of "New Improvised Music") and you'll be closer to his
world.
Ernesto Rodrigues assumes all radicality inherent to this openness to
the "becoming" of improvised speech quite naturally, and leading
to an obvious consequence: His music is atonal, polytonal, microtonal,
and non-idiomatic. Little is any trace of free jazz and "chamberistic"
classicism is but a far away reference. Yet, such queues are present since
no breakthrough or innovation is obliged to cut off with all history(ies).
In fact, Ernesto Rodrigues still applies Cage's concepts as to the use
of noise and silence, which is a direct consequence of the acceptance
of the fact that neither of these are non-musical - an idea that still
to this day is not unruffled, decades after John Cage's formulation. All
of his production stands for this, from «IK*Zs(3)» with Carlos
Bechegas on flutes and electronics, to «Assemblage» a CD with
Manuel Mota on electric guitar.
Being aware that noise recycling is an attribute of electric and electronic
instruments, one has to acknowledge that Ernesto Rodrigues’ option
towards the principles of "noise" patent in such examples as
«Self Eater and Drinker» with Jorge Valente in the synthesiser
and computer, «Multiples» with Guilherme Rodrigues on cello,
«Sudden Music» with António Chaparreiro on electric
guitar, «23 Exposures» with Marco Franco on soprano saxophone
and «Ficta» (with excellent Argentinean pianist Gabriel Paiuk)
is most clear and obvious mostly on acoustic contexts. Interesting to
notice is that Ernesto Rodrigues "bruitage" (to which - it is
only fair to point out - percussionist José Oliveira contributes
the most) co-exists with vast "spacings" and a sound production
and progression at "near-silence" level, similar in some way
to what you can listen to in Radu Malfatti, or Rhodri Davies, Mark Wastell
and Burkhard Beins’ Sealed Knot. This is a Music shaped by
restlessness and intensity, but at the same time holding such a delicacy,
sense of detail and even mildness which read out as total paradox.
Paradox is also present in the way Ernesto Rodrigues articulates an intuitive
musical production - whose source is to be found only on the domain of
"praxis" - with unmissable conceptualism. «Self Eater
and Drinker»’s main idea is the autophagy of acoustic sounds
by electronics. «Multiples» is a work of almost miniatures,
inspired by Anton Webern, which understands every part as a metonymy of
the all, in such a way that each next improvisation is but another aspect
of what's already been enunciated. «Sudden Music» celebrates
the ephemeral character of music even when a static structure, which like
olds everything under suspension, is present. «23 Exposures»
plays with the idea of exposing film to light: Depending on the degree
of that exposure the revealed photo offers a greater or lesser image sharpness.
Extreme situations where all figuration becomes impossible is in fact
what this work is all about.
«Ficta» is an allusion to a time in history - baroque - where
improvising meant to embellish with ornaments. In fact, "Musica Ficta",
Fictional Music, in those days was but a way to invent, to create in a
complementing fashion, what wasn't set on the score. Music Improvisation
today is quite a different story, but still is - even to greater extent
since there is no score - an enhancer of imagination, and namely of new
ways to combine sounds and even of the making of entirely new sounds.
Rui Eduardo Paes
L’histoire de l’improvisation au Portugal rencontre chez Ernesto
Rodrigues et José Oliveira, deux de ses figures les plus consacrées,
apartenant tous les deux à la deuxième de quatre générations
de musiciens. Cela ne les a pas empéchés, ensemble avec
António Chaparreiro, guitarriste venu récemment du Rock,
d’adhérer aux nouvelles pratiques qui transforment actuellement
le scénario de ce que l’on appelle “free music”.
Longues durées, minimalisme dans la géstion du matériau
sonore, fréquente utilisation de l’espace et de la respiration,
focus en l’elaboration de textures, déconstructionisme, eclatement
du phrasé conventionnel, application de concepts venus du “noise”
à l’esthétique du “near silence”, adhésion
aux paramètres audio de l’eléctronique, bien que dans
une musique foncièrement acoustique: ce sont bien là les
caractéristiques de leur CD «Sudden Music», tout comme
de leur travail sur scène. Cette capacité d’adaptation
n’a rien d’étonnant quand on connait le travail de
ces deux défricheurs de contrées: Ernesto Rodrigues est
un violoniste/altoiste d’intérêts divers qui englobent
sa passion pour les compositeurs “classiques” contemporains
et le passage par plusieures formations de musique populaire, en particulier
sa colaboration avec les chanteurs-compositeurs Fausto et Jorge Palma;
José Oliveira, en plus de percussioniste avec une abordage des
instruments qui le place dans la lignée de Paul Lytton, Paul Lovens
ou Roger Turner, est aussi artiste plastique et poète, aux liaisons
étroites avec le mouvement Fluxus. Depuis toujours, furent leurs
objectifs, la permanente inovation et la diversification, et celles-ci,
precisemment, ont attiré António Chaparreiro, las des lieux-communs
du Rock, à ces domaines de la musique créative de nos jours.
Dans ses mains, l’énergie de ce genre d’expréssion
cesse de se presenter sous sa forme la plus évidente pour gagner
en subtilité et en opportunité. Ensemble, ils peuvent faire
en sorte qu’une tempête paraisse paisible. Rui
Eduardo Paes
Creative
Sources (www.geocities.com/creativesources_rec)
È l’etichetta che fa capo al violinista Ernesto Rodrigues,
al violoncellista Guilherme Rodrigues e al percussionista / chitarrista
José Oliveira, musicisti dediti ad un tipo d’improvvisazione
piuttosto classica, che potremmo definire alla AMM. Finora ha pubblicato
una decina di titoli, fra i quali ci sono dei lavori a cui partecipano
anche Manuel Mota e Margarida Garcia. L’etichetta si sta allargando
verso una produzione sempre meno legata ai nomi dei tre musicisti e sempre
più di tipo internazionale, come dimostra il recente “No
Furniture” del trio Boris Baltschun / Axel Dörner / Kai Fagaschinski.
Nel sito dell’etichetta è già annunciata una serie
interessante di prossime uscite - in una di esse c’è di nuovo
la partecipazione di Manuel Mota e in un’altra quella di Alessandro
Bosetti - fra cui anche un CD in solitudine del fisarmonicista Alfredo
Costa Monteiro. Etero Genio
A música livre de Ernesto Rodrigues é uma estrela no galático
movimento da nova música improvisada a qual surgiu em meados dos
anos 60; sucedâneo do free jazz, do experimentalismo e da obra aberta;
intuição do instante, constelação de compositores-intérpretes;
passarela de instrumentistas excepcionais, construtores do bizarro, virtuosos
do epigrama; emancipou-se como música/performarte, concebeu um
espaço autónomo e atípico da vertente solística
e/ou colectiva, com técnicas audaciosas e conceptualizações
esquisitas; no âmbito da criação portuguesa de hoje,
cadáver esquisito, a arte intimista do seu violino é um
discurso singular, uma formidável formulação da pós
modernidade. Jorge Lima Barreto
Um facto histórico respeitante à música improvisada
nacional, aconteceu na acolhedora sala da Associação Cultural
Abril em Maio (Lisboa). E se é difícil sobreviver ao exaltar
uma forma de expressão pouco acarinhada, mais aventurado se torna
conseguir reunir 12 músicos e formar uma Orquestra onde improvisação
e liberdade assumem o papel principal. Tendo em conta o exímio
trabalho que Ernesto Rodrigues tem desenvolvido ao longo destes anos,
acrescentando a concepção e condução deste
magnífico projecto. É chegada a hora de reconhecer a solidez,
não só enquanto músico, como também valorizar
a sua postura, que o torna uma "figura" fulcral da livre expressividade
nacional.
Predominada por elementos de sopro, esta Orquestra de Geometria Variável
apresentou-se em duas partes distintas. Apreciando e qualificando a primeira
parte de alto nível, todos os instrumentistas se apresentaram de
forma considerável detonando uma plena sintonia com o desígnio
deste projecto. Destacando o saxofone soprano de Marco Franco (possuidor
de um sopro forte e conciso) e a delicada sonoridade proveniente da guitarra
de António Chaparreiro, edificaram-se como essenciais suportes
para que Ernesto Rodrigues adoptasse uma postura mais solta para o necessário
trabalho de condução. Aguarda-se com expectativa a gravação
deste empreendimento bem como uma actuação para um público
mais abrangente. Ficamos à espera. Carlos
Lourenço
The violinist/violist Ernesto Rodrigues upsets the surface of silence
once again with a new cd in which free-improvisation is once again associated
to a concept: in this case, that of assemblage/assembly, the construction
is made up of varied elements in which unity results precisely from diversity.
A condition which does not alter his search for a discoursive and expressive
state based on almost nothing, even if such an effort is constantly belied
by the unrest and engagement of the performers - Guilherme Rodrigues,
on cello and pocket trumpet; José Oliveira, on percussion, prepared
acoustic guitar and inside piano; and Manuel Mota on flat electric guitar.
The game proposed by «Assemblage» consists in this very struggle
between will and praxis and in the contradictions arising from such a
conflict. Few times has the practice of improvisation been so transparent.
Rui Eduardo Paes
Para os mais distraídos, e para aqueles que gostam mas crêem
que a música improvisada não tem qualquer tipo de expressão
no nosso país, deveriam por certo estar mais atentos à agenda
da Associação Cultural Abril em Maio. Utilizando o seu palco
para combater a apatia, a ignorância e inércia, cada vez
mais fortemente instaladas, Ernesto Rodrigues tem desenvolvido inúmeras
actuações e performances dignas de louvor e reconhecimento.
Desfrutando da estada de Gianni Gebbia (saxofone alto); Ernesto Rodrigues
(violino, viola, electrónica), Nuno Rebelo (guitarra eléctrica)
e José Oliveira (percussão, guitarra acústica preparada),
beneficiaram da melhor maneira a compleição improvisativa,
contagiada pelo saxofonista italiano, onde a capacidade e o conhecimento
individual de cada músico, veio ao de cima de uma configuração
tão natural, que fez emergir toda a sala a uma condição
magnetizadora e hipnótica. Subtileza - arte - talento - Cérbero
- belo - soberbo - celsitude - aplauso, são palavras que podem
descrever uma actuação distinta. Na memória não
ficam palavras, ficam sim imagens abstractas, onde a contemplação
irá residir eternamente. Carlos Lourenço
Sexta feira, o magnífico espaço da Abril em Maio, acolheu
um espectáculo da Variable Geometry Orchestra, o terceiro da sua
curta vida. Vou tentar explicá-lo: Durante uma hora e picos, a
VGO apresentou aos parcos presentes (cerca de 20 e tal) um programa de
improvisação completa, destilado pelo colectivo de 11 elementos
(eram para ser 12, mas alguém ficou pelo caminho), com porções
de improviso colectivo dirigido ou não, e com peças improvisadas
"au moment" por quartetos de sopros, trios de cordas, ou conjugações
entre os dois, por vezes acompanhadas da guitarra eléctrica, noutros
pelo contrabaixo, ou pela bateria, ou pelas percussões de mil e
um objectos aparentemente inofensivos. Foi bastante interessante, com
momentos muito bons e sinceramente gostei. Gostei principalmente de Marco
Franco, do Ernesto Rodrigues, do Chaparreiro, do baterista e até
do percussionista, mas sobretudo do colectivo. Do colectivo porque, as
improvisações foram-se revelando, desenrolando, com indicações
do Ernesto Rodrigues para o assumir de papéis, e depois iam-se
encaixando, iam brotando, quase sempre de forma agridoce, sem nunca explodir,
eram sussurros, espasmos, ventos, completados por mil e um sons de que
o olhar procurava a origem. Nalguns momentos pareceram-me pouco decididos,
como que procurando-se a si próprios, concerteza fruto do pouco
tempo que tocaram juntos, o que por outro lado deixa antever, com uma
maior rodagem, uma interligação empática mais forte
na improvisação.Tudo isto durou cerca de uma hora e tal.
Seguiu-se depois a projecção de parte de um video com a
gravação de um anterior espactáculo de Ernesto Rodrigues
& co, com uma diferente formação. O video não
era o mero registo de imagem, era sobretudo a transformação
videoplástica da música, da improvisação.
Uma espécie de improvisação plástica em suporte
video ao som que se ouvia. Zooms gigantes, blurs, saturações,
pormenores, etc, etc. Por esta altura uns meros 10 resistentes ainda por
lá se encontravam. A pedido de muitas famílias todo o elenco
subiu ao palco para uns 20 minutos de pura desgarrada freeimprov. Delírio
e caos em doses maciças, os onze elementos entregaram-se à
improvisação total sem regras, numa cacofonia que teve momentos
absurdos e momentos de puro deleite, tal era a desgarrada ... só
visto! Há-de haver mais! A Abril em Maio prometeu. Ah! E já
têm a novel Bock preta, bem boa por sinal. Hasta! Stay free. Nuno
Martins
Ulrichsberger Kaleidophon 2003
[...] Atemberaubend war das in sich gekehrte portugiesische Quartet Assemblage.
Ein feiner Belag aus Geräuschkies, der Streich-, Blas- und Schlaginstrumenten
nichts von ihrer Charakteristik belässt, dessen Duktus aber nur mit
diesem Instrumentarium ziseliert werden kann: Weg von der instrumentalen
Kenntlichtkeit zu einer zarten Zeichmung, die den Zuschauer mit Beschlag
belegt und Staunen lässt. [...] Michael Frank
(Süddeutsche Zeitung)
Ernesto Rodrigues, com Guilherme Rodrigues, Manuel Mota, José Oliveira
e Margarida Garcia, são outras presenças portuguesas no
Co-Lab (dia 24 às 12h30).
[Ernesto Rodrigues], partiu para os limites mais radicais da música
improvisada até chegar à chamada “micromúsica”
ou “near silence”, apropriação das directivas
de John Cage, mestre escultor do silêncio ou, melhor dizendo, poeta-cientista
munido de microscópio sonoro de alta potência. Fernando
Magalhães (Público)
O clube de Jazz lisboeta Hot Clube, acolheu nesta noite um dos projectos
mais elevados de Ernesto Rodrigues - FICTA.
Agregando o guitarrista Manuel Mota à formação base
do trabalho gravado em 2002, a este quinteto nada faltou para que a subtileza
sonora invadisse o mítico espaço da Praça da Alegria.
O meu destaque vai sem dúvida para a astúcia demonstrada
pelo pianista Gabriel Paiuk, desenvolvendo técnicas menos convencionais,
no que respeita à forma de preparar o instrumento. Paiuk conseguiu
tirar do piano amplas possibilidades tímbricas e sonoras.
Evidenciando-se o local não ser o espaço ideal para o género
musical em questão. Foi gratificante sentir que a coesão
e maturidade deste magnífico colectivo não se tivesse deixado
abalar pelas conversas e ambiente mais calorosos inerentes aos clubes
de jazz.
Espero contudo que a engrandecedora mensagem - FICTA - tenha deixado marcas
fortes e contemplativas aos intitulados adeptos do “som da surpresa”.
Carlos Lourenço
A
linguagem é fonte de mal entendidos, mesmo quando a formulação
se rege de acordo com a sintaxe, e segundo os preceitos gramaticais correctamente
as grelhas de interpretação são subjectivas e sujeitas
a variáveis de interpretação. A linguagem dos sons
ainda mais, pois rege-se por métricas e lógicas que lhe
aumentam exponencialmente as potenciais capacidades receptoras.
Fui assistir a um concerto do Ernesto Rodrigues e da Orquestra de Geometria
Variável. Logo no nome temos um programa, de facto estamos face
a um quadro de hipóteses flutuante consoante as disponibilidades
da sonoridade, e as capacidades do espaço acústico. O local
Abril em Maio lembra outros locais, esconsos e clandestinos, para iniciados
e amantes. A música, o alinhamento das estranhas sonoridades, enche
os interstícios e ocupa a possibilidade de recepção
acústica. Por ela passam memórias e afectos com os instrumentos
e a vocalização. Os metais atiram-nos para o free
jazz e as cordas trazem-nos para uma decomposição da sonoridade
em que a melodia é uma improbabilidade mágica.
Uma abertura de espírito gera-se enquanto a polifonia desarmónica
de ruídos nos enche o cérebro. Ficamos atordoados e despertos,
como quando experimentamos cogumelos mágicos.
Parece não haver princípio, parece não haver fim
num tempo que parou e fica flutuante nos sons e na sua hipérbole.
Momentos como este valem um êxtase. Divino como o que se concentra
e prolonga. Um som que se ouve no silêncio do conhecimento. António
Eloy
Imagine
a blank surface. Now think how it would look if you cut with a knife some
traces and little holes on it. You have a visual texture now, something
to see but at the same time something that reminds you of the nothingness
of the surface. That's exactly that what Ernesto Rodrigues, Alfredo Costa
Monteiro, Guilherme Rodrigues and Margarida Garcia do with silence. Their
knives are sounds - the "incognito" sounds that a conventional
musical instrument can produce, even if it's impossible to notate them
- and what they do is textures. Maybe you don't want to call painting
a texture made with a knife (or maybe you do), and this quartet is indifferent
to the doubt if this is or isn't music. The question isn't really important,
and you must know by now that there's an imense artistic territory to
explore before music and after music - music is only one way to do...
well, let's call it music. Ernesto says, amused, that «Cesura»
(one of the Portuguese words to say "cut") is his less musical
work. Amused, certainly, but with the subversive feeling of someone carrying
a knife in the hand. Rui Eduardo Paes
The
violinist Ernesto Rodrigues is a major improviser from Portugal on his
own, but combined with his son Guilherme Rodrigues on cello he is part
of one of a deeply expressive example of family bonding through creative
music. Anyone would agree who has seen a live or filmed performance of
the two in action onstage, the father crouching over his son somewhat
akwardly in the throes of spontaneous composition but looking a bit like
he is trying to smell the kid's breath for alchohol—not that a Portugese
father would do such a thing. The senior Rodrigues has been active in
avant garde music for several decades, aligning himself with many revolutionary
forms of expression including micro-tonal tunings and the art of "preparing"
stringed instruments by actually altering their physical structure. The
violinist has performed with many groups on the Lisbon avant garde scene,
most notably the ensembles Assemblage and Ficta. In the latter trio, the
Rodrigues father and son work together with percussionist José
Oliviera. The senior Rodrigues started in the direction of free improvisation
groups such as this when he came in contact with the type of avant garde
classical scores that are often described as "indeterminate,"
meaning quite a few of the details of the actual performance are left
up to interpretation and/or serendipity. Rodrigues was also influenced
by electronic music, like many improvisers on traditional instruments
relishing the challenge of utilizing their axes to match, sound for sound,
the noise coming out of plugged-in equipment. The violinist has performed
for films, dance, performance-art projects and video as well as in concerts
and on recordings. In 1999 he started up his own label, Creative Sources.
Eugene Chadbourne
Introduce.
The days of liner notes that merely provide a description of the music
an album contains are long gone – we no longer need to be told how
to listen, nor what to listen for – but when it comes to titles,
hmm, maybe those words are important after all.. Ernesto Rodrigues –
whose Creative Sources imprint is fast becoming one of Europe's essential
labels in the domain of improvised music – could easily have chosen
some gloriously rugged Portuguese sonorities and had us scurrying to our
dictionaries in search of clarification, but instead has borrowed a French
noun from the world of photography – "contre-plongée"
translates as "low-angle shot", and the associated expression
"en contre-plongée" means "from below" –
and, to describe the six pieces on offer, the venerable English word "cut".
Discuss. Elaborate. In the past ten years, practitioners of improvised
music, finally severing the putrescent umbilical cord that attached the
genre to its distant transatlantic parent, free jazz, have pushed the
technique envelope of traditional acoustic instruments beyond all recognition
– as if the instruments themselves have been approached from another
angle altogether, as if seen from below.. Illustrate. One need merely
draw up a list (woefully incomplete, at that) of standard instruments
and namecheck the musicians whose furious innovation has taken them to
another level altogether: trumpet (Axel Dörner, Greg Kelley, Franz
Hautzinger and Matt Davis – to name but four!), trombone (Thierry
Madiot..), tuba (Robin Hayward..), flute (Jim Denley..), oboe (Kyle Bruckmann..),
clarinet (Kai Fagaschinski, Isabelle Duthoit..), soprano saxophone (Bhob
Rainey, Alessandro Bosetti, Stéphane Rives..), violin (Mathieu
Werchowski, Angharad Davies, Kazushige Kinoshita..), viola (Charlotte
Hug..), cello (Martine Altenburger, Nikos Veliotis, Mark Wastell..), double
bass (David Chiesa, Mike Bullock..), piano (Frédéric Blondy,
Sophie Agnel, Andrea Neumann..), not to mention harp (Rhodri Davies..)
and accordion (Alfredo Costa Monteiro..). And, en contre-plongée,
let's add the names of Ernesto Rodrigues (violin and viola), Gerhard Uebele
(violin), Guilherme Rodrigues (cello) and José Oliveira (bowed
acoustic guitar and inside piano). Extend. "String quartet"
needs some explanation too, then; the classical string quartet consists
of two violins, viola and cello, but as Ernesto Rodrigues plays both violin
and viola (though presumably not at the same time..) one could argue that
the line-up here is a classical string quartet compressed into a trio.
There's a wild card though, in the form of Oliveira – guitar passes
as a stringed instrument, sure, but the piano is a percussion instrument,
right? Conclude. Which takes us to "cut" – as in surgical
intervention, or – to pursue the cinematic analogy – stop
shooting: break, rethink, start again, remake, remodel. Why should the
piano be a percussion instrument (one can, after all, bow those strings)
and why should a violin not be a percussion instrument (it's about time
we dispensed with "percussion" altogether – friction would
be more appropriate..)? Cut, yes, time to take the scissors to the map,
prepare a landing strip for the string quartet of the 21st century. Listen.
Dan Warburton (www.paristransatlantic.com)
Portugal’s
Creative Sources has quickly become a must listen label. Focusing on music
that sits in the cracks between European free improvisation and “lowercase
sound” or “eai” music, label head and ace improviser
Ernesto Rodrigues has kept up an active release schedule and built up
an impressive catalogue of provocative improvisations. Jason
Bivins (Signal to Noise)
Ernesto
utilizando todas y cada una de las partes del arco para sacar sonoridad
a la viola, con apenas algún pasaje melódico, ha sabido
estrujar su instrumento hasta el límite de hacerlo sonar con una
balleta de esas de metal, las que tan bien rascan los restos de las sartenes,
y que en sus manos han rascado todos los restos posibles sonoros que puede
haber en un instrumento de cuerda-madera, optando por mostrar una faceta
totalmente expresiva más que musical. Sadhu,
Septiembre 2004, Madrid (España)
Creative Sources Recordings was founded by Ernesto Rodrigues in 1999,
but the first record was released in 2001. In the beginning the label's
task seem to record its owner's activity (he appears on half of the cds).
It's intelligible because Ernesto, active for twenty years musician (violinist,
improviser, composer) wasn't favoured to release records as a leader.
It has to be accentuated that increasing amount of records didn't decrease
the quality of music. Ernesto Rodrigues hasn't forget about other musicians.
Soon, in cd catologue (14 records so far) appeared records by new artists
(not only form Portugal). Rodrigues focused on music from the space between
improvisation, electroacoustic and so called "new music" (mostly
specific comprehended chamber music). Tadeusz Kosiek
(http://www.diapazon.pl/)
About
a year ago, I first reviewed a Creative Sources disc for Dusted and noted
that improvised music would be nothing without local scenes and the labels
dedicated to documenting them. That’s still true. But when people
start to take notice, the next level is the formation of links with other
scenes. The Lisbon-based label – run by Ernesto Rodrigues, an excellent
improviser who plays on some of the label’s releases – has
made that next step. Along with labels like Erstwhile, For4Ears, Confront,
Meniscus, and Potlatch, this imprint is documenting some of the finest
“lowercase” improvisation around and has become a label with
a strong track record and a global focus. Their release schedule has really
picked up of late too. In fact, they’ve just dropped a quintet of
recordings featuring a fairly broad array of European improvisers. Many
readers won’t be too familiar with the majority of the players.
That deserves to change. […] Taken as a whole, this quintet of discs
is pretty satisfying. While some clearly work better than others, they
give improv freaks some insight into what’s happening in some lesser-known
European scenes. They also confirm the strength and identity of this excellent
label. Jason Bivins (Dusted)
Três
dos melhores improvisadores nacionais reencontram-se para abordar um programa
de música composta no momento em que é executada. Micro-climas
sonoros criados em tempo real, que permitem investigar novas formas de
combinação e organização sonora. O concerto
de Ernesto Rodrigues, Manuel Mota e José Oliveira, ontem à
noite na Trem Azul – a que assisti apenas parcialmente – naquilo
que me foi dado ver e ouvir, cumpriu plenamente as expectativas. O som
do trio é muito coeso e a sala da Trem Azul possui boas condições
acústicas para a prática musical, em particular para este
tipo de contextos, pequenas formações de improvisação
livre, que induzem e facilitam uma relação de grande proximidade
- de intimidade até - entre artistas e público. Musicalmente,
o trio atingiu um elevado nível de maturação e desenvolvimento,
evidenciando a prática de tocarem juntos, cujos resultados são
conhecidos das gravações para a Creative Sources, editora
portuguesa criada por Ernesto Rodrigues. Os músicos interagiram
bem, construindo um discurso atravessado por uma poética que vai
do silêncio à brusca explosão, numa linha estética
que se filia na livre-improvisação europeia - em particular
da escola de Londres, pós Spontaneous Music Ensemble (SME), profusamente
documentada pela editora EMANEM - com referências à música
de câmara contemporânea. Manuel Mota afagou, percutiu e esfregou
as cordas, transformando a guitarra num instrumento cujo primeiro resultado
é a produção de texturas, ora rugosas e ásperas,
ora suaves e aveludadas, com enorme variação de cor e forma,
que se misturam com a manta de percussão que José Oliveira
estendeu, encolheu e voltou a estender. Estruturas flexíveis sobre
as quais a liquidez sonora do violino de Ernesto Rodrigues teceu malhas
recortadas a partir de uma imensa variedade de técnicas de execução
do instrumento. A electrónica, usada com parcimónia e integrada
na paisagem, contribuiu menos para a alteração ou modificação
sonora, que para adicionar novos significados e um certo efeito de transparência
sobre os procedimentos em curso. Música fragmentária e descontínua,
mas assinalavelmente coesa e estruturada em regime de construção
em tempo real, cheia de incidentes e surpresas a cada volta. Na música
de Rodrigues, Mota e Oliveira, todos os sons e silêncios são
válidos, pertinentes e fazem sentido, na sua totalidade como no
mais ínfimo detalhe. Eduardo Chagas (Jazz
e Arredores – à sombra de Ra)
Violinista
e manipulador de electrónica, Ernesto Rodrigues tem-se afirmado
nos últimos anos como uma das figuras de proa da actual cena improvisada
portuguesa. Não obstante a robusta discografia de que é
senhor, na sua maioria disponibilizada pela creative sources recordings,
a editora que dirige desde 1999, Rodrigues ainda está longe do
reconhecimento que há muito vem justificando. Na sessão
às escuras que lhe propusemos, e cujo grau de dificuldade poucos
deixarão de reconhecer como (pelo menos!) distante do acessível,
tentámos cobrir as suas principais áreas de interesse: Jazz,
Livre Improvisação, Electrónica e Clássica
Contemporânea. Aqui ficam então os principais momentos. […]
João Aleluia (Jazz.pt)
I'm continually surprised at the rate with which Ernesto Rodrigues releases
discs on his superb Creative Sources imprint. As most folks reading this
know, the excellent viola/violin/electronics improviser began to document
Portuguese and Spanish improvisation several years back and has quickly
developed his label into one of the premier outlets for improvisation
at the intersection of European free music, electroacoustics, and new
music. I recently opened up my mailbox to find a package stuffed with
seven of the label's latest goodies. All told, it's a strong batch. […]Taken
together, this septet of discs is worthy not just for their quality but
also for their documentation of this music (and some of its lesser known
players). Rodrigues already has a new batch out. In the meantime, however,
don't miss out on some of these gems. Jason Bivins
(Bagatellen)
As
últimas edições da portuguesa Creative Sources testemunham
que algo se está a passar no sector da criatividade sonora a que
demasiado apressadamente (percebemos agora) se chamou "reducionismo".
Já se discutia se esta frente da improvisação reduzia,
de facto, os materiais da sua produção musical até
às proximidades do silêncio, ou se, pelo contrário,
o que se pretendia era somar algo ao zero. Pois o que nos oferece a maior
parte destes discos - e creiam que a editora de Ernesto Rodrigues se tornou
mesmo no barómetro das evoluções ocorridas nesta
família - comprova que os tais "reducionistas" são
cada vez mais "acrescentacionistas". Com uma tónica mais
electroacústica do que alguma vez esperaríamos de um catálogo
que parecia apostar nos novos improvisadores acústicos, é
a toda uma mudança de parâmetros que assistimos. Se antes
o trabalho das texturas era uma característica genérica,
agora verifica-se já uma acentuação no labor tímbrico
e no plano harmónico, o que, se aproxima mais estas práticas
das correntes preocupações da música escrita contemporânea,
liberta-as também do que parecia estar a converter-se numa cartilha.
A recusa do fraseado e da nota convencional e o microtonalismo mantêm-se,
mas o estado presente desta prática deixou de lembrar a "action
painting" de Pollock para nos remeter às manchas pictóricas
de Rothko, com a rarefacção dos sons a ser contrariada,
muitas vezes, pela disposição de "drones" e até
pela sobreposição de camadas de elementos, tão transparentes
quanto aguarelas, decerto, mas valorizando a densidade. O próprio
volume auditivo subiu, o que até era previsível face ao
crescente desejo de evidenciar os mais pequenos pormenores do mundo microscópico
em que esta música tem vivido, por meio de microfones de proximidade
e de contacto no que aos instrumentos tradicionais diz respeito. […]
Rui Eduardo Paes (Ananana Newsletter)
[…]
If the gallery works for the aformentioned groups as a new place for both
creative relief and inspiration, for 45 year old violinist Ernesto Rodrigues
it’s been the one concert space in town where his shows have regularly
taken place. A militant label owner, promoter and generous curator of
collaborations, Rodrigues is now more than used to having to find his
own solutions to present his work. He set up the Creative Sources label
to put out his own music, and since the label’s first release (2001’s
Multiples), he has established himself as one of the most accomplished
improvisors in the lowercase/near silence circuit.
With Creative Sources, he has been constantly putting out releases by
several groupings and solo artists, including Tetuzi Akiyama, Axel Dörner,
Raymond Strid and Taku Unami, as well as by regular collaborators Manuel
Mota, Margarida Garcia, Barry Weisblat, Alfredo Costa Monteiro, José
Oliveira or his cellist son Guilherme, who he has been working with since
the age of 11.
Rodrigues’s path through extreme music precedesPortugal 1974 revolurion,
prior to which he became acquainted with American free jazz. He was inspired
by Cage’s Zen-influenced (non-)musical strategies in silence and
sound, Feldman’s microtonalism, an upbringing surrounded by Ligeti
and Stockhausen, as well as a strong connection with the first generation
of English improvisors of the late 60s/early 70s. Pedro
Gomes (The Wire)
The
unflaggingly energetic Portuguese label continues its chronicle of new
areas of free improvisation, as Jason Bivins attempts to keep up.
Since writing about Creative Sources earlier in 2005, over a dozen new
recordings have been released on Ernesto Rodrigues’ fine imprint.
Still concentrating, roughly speaking, on micro-improv and electroacoustics,
the label has developed several specific areas of concentration: solos,
duos, and group improvisations. Jason Bivins (Dusted
Magazine)
Violinista
/ violista de formação clássica e interesses que
vão da música contemporânea (é um habitual
frequentador dos seminários de Emmanuel Nunes) ao free jazz e à
livre-improvisação, Ernesto Rodrigues tem protagonizado
uma abordagem reducionista e de "near silence" em que a nota
é substituída pelo som puro (ou pelo ruído) e a estrutura
pelas texturas, com deflagração dos fraseados em elementos
atomizados, quase total desaparição dos três factores
essenciais da musicalidade convencional (melodia, harmonia e ritmo) e
utilização de microtons ou total atonalidade. Rui
Eduardo Paes
[…]
A música é também isso, um sentido para os sons e
silêncios, a harmonia desses resultante, ou a desarmonia.
A criação, recriação dos sons, das linhas
melódicas ou das rupturas, do fluído ou do corte, pelo silêncio
ou de outro ruído, que o silêncio também é.
A arte, como o exercício do palato é essa descoberta, e
a sua conjugação articulada ou desarticulada no seu sentido.
Gosto dos sons.
Com o Pedro Caldeira, meu velho amigo, apesar, e por isso mesmo, de todas
as divergências "ideológicas", escrevi sobre, ouvi
jazz, e também me enamorei desse som como sexo.
Com o irmão, o Zé Ernesto Rodrigues, e o Guilherme, e os
amigos colaboradores, e ontem com o Manuel Mota, no CCB, numa organização
do meu velho amigo e camarada REP e da Granular, ouvi uns sons "marados".
Que dão como referi uma grande pedra, no "bom" sentido,
pois são as desarmonias que contróiem uma vitalidade, a
vitalidade, o som onde se descobre sentir, sentido.
No carro vim a ouvir o cd “Dorsal”.
Cheguei nas nuvens.
Este som que se perde na perdição é uma nova energia.
Que ilustrará, a seu tempo um filme suave, sobre essas. António
Eloy
Ernesto
Rodrigues and Manuel Mota may be standing on top of a very strong tradition
in what concerns the relations between an arco string instrument and a
guitar: the one introduced before the Second World War in improvisation
by Stephane Grapelli and Django Reinhardt with the Quintet of the Hot
Club de France. They certainly come from that heritage, even if aesthetically
we can’t find any other common point besides the same naturalness
in terms of sound and interaction. Like what happened with those two great
figures, the extraordinary thing is that Rodrigues and Mota backgrounds
couldn’t be more different. The violist had classical training and
went through free jazz before arriving to the non-idiomatic music he now
embraces, and the guitarrist learned to pluck his ax by himself, moving
his path from a minimalist-like drone work and re-discovered fingerstyle
in the Delta blues based music.
And that’s what characterizes this duo: even if free in form, even
if inovative in terms of vocabulary and the technical procedures used,
the music they play has a strong sense of history. Elements of post-serialism
and of the trademark conceptions of Xenakis and Lachenmann melt in some
way with echoes of Robert Johnson’s playing, and jazz stylings connects
with references coming from the written European music of the two last
centuries. This meeting of cultures could seem bizarre, but it’s
so interiorized by both Ernesto Rodrigues and Manuel Mota that it’s
not a matter of fusion or collage. It’s like this music always existed,
ready to be performed, as something that is only the result of a continuity
and a simultaneity of musical data. Hybrids are the natural cultural objects
in this beginning of the 21st century... Rui Eduardo
Paes
Ernesto
Rodrigues essaie de présenter l’éventail le plus large
et le plus remarquable de cette scène qui a étendu ses ramifications
un peu partout de Londres à Oslo et de Tokyo à Paris. Il
privilégie l’ouverture le plus large possible dans cet univers
sonore où les choix musicaux sont fondés sur la restriction
et la volonté d’étendre la palette en se limitant
à un aspect bien précis du jeu instrumental. Parfois tellement
restrictif et limité que cela peut déboucher sur l’ennui.
Mais l’ouverture à ces nouveaux sons chez Rodrigues est très
éloignée de toute forme de dogmatisme et de complaisance.
Il suffit de mesurer la diversité des disques Creative Sources
pour s’en convaincre.
Jean-Michel
van Schouwburg
A
Trem Azul, prosseguindo a bem-aventurada série de concertos que
tem vindo a promover ao fim da tarde (19h30) na sua Jazz Store, em Lisboa,
acolheu desta vez a estreia mundial do Sexteto de Cordas, dirigido por
Ernesto Rodrigues. Além do violista e director, a formação
inclui Manuel Mota, guitarra acústica; Pedro Costa, violino; Hernâni
Faustino, contrabaixo; Eduardo Raon, harpa; e Guilherme Rodrigues, violoncelo.
Durante pouco mais de meia hora, o Sexteto executou duas peças
de música delicadamente pontilhística, livremente improvisada,
expressas num idioma que, se não totalmente familiar a todos os
executantes, se apresentou de modo a fazer com que as diferentes partes
se integrassem plenamente na progressão colectiva. Contrastes,
dinâmicas vivas e boa gestão de intensidades, criaram uma
interessante tapeçaria sonora de tonalidades escuras, como um drone
que ia perdendo e adquirindo carga na sua sinuosa e elegante evolução.
Todavia, o mais cativante da performance foi a forma gentil e graciosa
como se entrelaçaram as texturas criadas pelos diferentes cordofones,
seguindo uma pulsão rítmica interna, irregular e assimétrica,
tecida por uma infinidade de fragmentos melódicos, poalha recolhida
e reposta em jogo pelo trabalho de sustentação da harpa
e do contrabaixo. O resto foi o extravasar da enorme riqueza tímbrica
das cordas, num set de música de câmara com muitas arestas,
oscilações e inflexões de guitarra, violino, viola,
violoncelo e contrabaixo, ligados entre si por uma corrente de energia
criativa, para a qual contribuiram os protagonistas com o que têm:
ideias próprias para o colectivo e instantâneo desenvolvimento
musical.
Apesar da boa qualidade artística, vezes houve em que se notou
algum desinvestimento na direcção musical, com os músicos
ocasionalmente “aos papéis”, facto que é, simultaneamente,
o mais difícil e o mais fácil de acontecer na improvisação
livre – um género em que não há “papéis”
e em que “andar aos papéis” é um dos riscos
inerentes à prática musical sem rede –, controlo imediatamente
retomado no ciclo seguinte, muito porque estes músicos souberam
fazer uso do sentido de oportunidade, ouviram-se entre si e comunicaram
quando sentiram que o momento era propício.
Pena é que o público do jazz não se interesse, despreze
ou não esteja preparado para dar ouvidos a esta música,
que é de muito boa vizinhança e interpenetração
com aquele género, do qual não é, seguramente, nem
degeneração nem abastardamento. Diferentes entre si, têm
convivido pacificamente ao longo de décadas, com benefício
estético para ambas as linguagens. Mas essas são contas
de outro rosário. O que para aqui releva é que o Sexteto
de Cordas apresentou ao público uma boa proposta musical, eloquente
nos detalhes e delicada nas intersecções espontaneamente
geradas. Ideal para apurar o ouvido e despertar a fantasia. Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
Assentem
este nome: Creative Sources Recordings. É uma editora discográfica
portuguesa, dirige-a um músico e não um comerciante, Ernesto
Rodrigues, e tornou-se no "pivot" das novas tendências
internacionais da improvisação acústica e electroacústica,
do chamado reducionismo (tocado a um nível muito próximo
do silêncio ou integrando mesmo este nas suas construções)
ao "noise" que não confunde a utilização
de sons declaradamente não-musicais com descargas de adrenalina
e testosterona. Possuidora de um longo catálogo de lançamentos
que inclui nomes de três continentes, Europa, América e Ásia,
esta etiqueta funciona mesmo como o termómetro que assinala o que
vai mudando estética e tecnicamente nestas áreas. E com
isso está a fazer história, pois nada de semelhante aconteceu
antes com um empreendimento português do género. E o curioso
é que outras "labels" nacionais seguem já o mesmo
caminho, a Clean Feed no que respeita ao novo jazz e a sirr no domínio
da electrónica. Não obstante tudo o que de mau tem havido
por cá, Portugal está a dar cartas, com o reconhecimento,
a atenção e o entusiasmo até da imprensa musical,
dos canais de distribuição e dos melómanos de outros
países. Os nossos parabéns. Rui Eduardo
Paes (Ananana Newsletter)
[…]
The first group, assembled by violist Ernesto Rodrigues, were very quiet,
with sounds from prepared strings, mouthpiece-less soprano sax and trumpeter
Masafumi Ezaki, who at one point drags his instrument across a drum head
to make little noises. When Ezaki plays a sustained note, it seems almost
perverse. There are beautiful sounds and ugly ones. […]
John L Walters (The Guardian)
Enquanto
atravessava o Bairro Alto a caminho da ZDB para assistir ao concerto da
Variable Geometry Orchestra, dizia para os meus botões esperar
uma sessão de livre-improvisação clássica,
em passo lento e muito jogo a meio-campo. Surpresa! Adianto já
que foi um dos melhores concertos a que assisti este ano.
Na realidade, deparei-me com um magnífico trabalho orquestral,
feliz na exploração tímbrica, na difícil administração
de 16 egos, autogestão dos tempos de entrada e saída, no
saber ouvir, reagir e estar parado – papel fundamental! Notei uma
incontável sucessão de pontos de interesse, de que destacaria
os momentos de vigorosa progressão com acentuadas subidas e descidas
de intensidade, a que só faltou os metais terem correspondido em
grito às invectivas rítmicas disparadas de vários
pontos da panorâmica, a um passo da explosão total, catarse
de uma música que produz e se alimenta de fortes campos magnéticos.
Neste aspecto, fez falta um pouco mais de brass, um trombone ou dois (Fala
Mariam ou Eduardo Lála teriam sido duas excelentes hipóteses),
trompete e outro saxofone, além do tenor de Abdul Moimême
e do alto de Nuno Torres, para aumentar a expressividade do colectivo
e, sobretudo, servir os momentos mais trepidantes, em que o fogo se torna
abrasador, no limite do suportável.
Em acção, a Variable Geometry Orchestra surgiu espontaneamente
montada em duas duplas: Manuel Mota (guitara eléctrica, na posição
de primeiro violino da orquestra clássica) e Ernestro Rodrigues
(viola), à frente, estabelecendo as coordenadas para a atonalidade
geral; e lá atrás, José Oliveira (bateria, percussão,
excelente uso do bombo e pratos), e Hernâni Faustino (contrabaixo),
a ligação perfeita no trabalho de propulsão rítmica
a uma só respiração, qual «Faustino & Oliveira,
materiais de construção, ilimitada». A eles se ficou
a dever parte substancial da coerência e da dinâmica imparável
da orquestra. No meio, a ponte entre as duas margens, Sei Miguel, a soltar
o risco e o brilho do trompete de bolso, outro dos heróis da noite.
Nesta dupla triangulação se apoiou o resto da VGO, informalmente
organizada por naipes, na permanente troca de posições,
de forma a tornar imprevisível o passo seguinte. Bom trabalho dos
cordofones e dos ruidistas (laptop, field recordings, tape, sortido de
percussões...), que encheram a panorâmica com pertinência,
propósito e leveza. As texturas de fritadeira e gratinado de guitarra
preparada e laptop, de impressionante bom gosto, somaram-se às
gravações de campo de João Silva e trouxeram um tempero
especial ao conjunto, transportanto para o interior de uma música
que é tida como música de câmara, sinais sonoros da
rua, contrastando urbanidade com bucolismo. Deste modo, a ilusão
foi perfeita e enorme o valor acrescentado em matéria de cor e
movimento.
O que esta inspirada versão da VGO provou é que há
outro jazz emergente, que desponta e se ergue das cinzas do género,
apoiado no melhor que a livre-improvisação tem para dar,
espécie de tertium genus diferente do que se conhece no panorama
das orquestras de free jazz ou de free improv, europeias ou americanas,
do passado e da actualidade. Com uma vivência musical muito para
além das pré-formatadas regras de organização
sonora. Há algo de novo que se conjuga com o que é comum
a outras linguagens. O resultado prático foi uma espantosa e empolgante
sucessão de quadros musicais expostos com grande convicção,
mérito de todos os participantes e em especial de Ernesto Rodrigues,
diligente congregador de vontades e organizador sonoro de gabarito.
O espanto foi ainda maior quando fiquei a saber que diante de mim se desenrolara
e voltara a enrolar o novelo durante hora e meia, sem que jamais tivesse
tido a consciência da passagem do tempo, de tal modo me encontrava
em estado de transe e graça musical. Por mim, teria ficado para
outro tanto e com muito prazer. Os músicos também, estou
em crer. A sessão foi gravada. Para a edição, já!
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
A
Orquestra de Geometria Variável é um projecto liderado por
Ernesto Rodrigues, incansável dinamizador na cena da música
improvisada nacional. A par com a coordenação da editora
Creative Sources (a desenvolver um trabalho cada vez mais notório),
mantém uma série de projectos em simultâneo. Há
um par de semanas Ernesto estreou o Sexteto de Cordas (notável
ensemble acústico onde se destaca a inclusão de uma harpa)
e no sábado foi a vez de levar a Orquestra VGO à Zé
dos Bois.
Estava inicialmente previsto que se juntassem dezanove músicos
em palco, mas a ausência de alguns reduziu o número de elementos
para dezasseis – nada de mal, uma vez que, como o nome indica, nesta
orquestra a geometria é variável. O propósito anunciado
deste grupo era, a partir de livre improvisação combinada
acústica e electrónica, conseguir criar uma unidade de som
e abrir espaços para o silêncio – “o som rompe
do silêncio para nele voltar a mergulhar”, prometia o press-release.
E assim aconteceu.
Conduzido pela viola de Ernesto Rodrigues, o grupo seguiu numa extensa
viagem musical bem estruturada, numa alternância entre quietude
e crescendos desenfreados. Manuel Mota, regressado à guitarra eléctrica
depois da experiência acústica no Sexteto de Cordas, foi
a segunda voz, sem exageros mas com uma presença forte, envolvente
na construção de texturas. Logo depois evidenciou-se a importância
da percussão: José Oliveira na bateria (kit personalizadíssimo)
e César Burago em simples cowbell (melhor instrumento de sempre,
como dizem agora os putos) foram determinantes na caminhada. Sei Miguel,
apesar das esparsas aparições, fez o pocket-trumpet (com
surdina) brilhar e introduziu novos elementos.
O papel das restantes cordas foi determinante: Guilherme Rodrigues, filho
de Ernesto, mostrou-se sempre atento no violoncelo; Pedro Costa (violino)
teve pormenores de interesse; Hernâni Faustino balançou no
contrabaixo. A dupla de saxofones (Nuno Torres no alto, Rui Horta Santos
no tenor) esteve discreta, mas ainda se fez notar nas partes crescentes.
Tornava-se difícil identificar propriamente os sons provindos da
secção electrónica (field recordings, gira-discos,
electrónica, tape), mas o quarteto ia fornecendo ambientes inspirados.
E a maior surpresa da noite terá sido a presença do didgeridoo.
Entrando pela emissão de sons inesperados e próximos do
sussurro, a música foi crescendo progressivamente, culminando em
momentos de grande intensidade de convulsão colectiva. Há
uma semana atrás o histórico Telectu fez prova de vida,
agora foi tempo da geração presente dar sinais de grande
vitalidade na mesma Galeria Zé dos Bois. Num raro momento em que
fervilham ideias e projectos na improvisação portuguesa,
aguardam-se com curiosidade futuros desenvolvimentos relativamente a este
large ensemble nacional, talvez a “nossa” mais imponente formação.
Nuno Catarino
(Bodyspace)
Se
há coisa que mais distingue as novas práticas da improvisação
das “mainstream”, sem ser a utilização do silêncio
e o abandono da narratividade nas execuções instrumentais,
é o facto de os seus protagonistas preferirem deixar-se levar pelo
fluxo dos eventos sonoros em vez de os dirigirem – aliás,
a preocupação da “velha” música improvisada
com a conclusão das peças chega a ter dimensões algo
neuróticas, dada a necessidade sentida de conduzir as situações
a todo o custo, seja segundo o modelo estático herdado do free
jazz coltraneano, no qual o fim é sempre implicado, ou segundo
o padrão desenvolvimentista, cujas mudanças de direcção
e de intensidade (as tão irritantes subidas e descidas) justificam
o uso do termo “composição imediata” e que,
parecendo deixar o final “para depois” no ziguezaguear ou
no subir e descer das suas estruturações, não fazem
mais do que o anunciar. Pois os chamados “reducionistas”,
de que a portuguesa Creative Sources Recordings se tornou no principal
porta-voz, não compõem, limitando-se a tocar o que ouvem
e a ouvir o que tocam, de tal modo que o tocar é a extensão
do acto de ouvir. Os mais recentes lançamentos da editora são
exemplos muito concretos desta perspectiva a-linear da música,
e se em muitos casos é mesmo de supor um alheamento relativamente
a tudo aquilo que define a música enquanto tal, ainda que encarada
apenas como “organização de sons” (quase total
ausência de dinâmicas, inexistência de repetições,
opção pelas parasitagens sonoras e pelo ruído, ou
seja, pelos sons não-musicais), a musicalidade surge como uma citação
e uma lembrança, na forma de um tom, um breve fragmento de melodia,
um harmónico ou uma pulsação, a música remanescente
no interior de uma invocação directa (porque não
mediatizada musicalmente) do Som, chamada a intervir não para definir
ainda estas práticas como coisa musical, mas precisamente para
salientar por contraste esse outro estatuto. […] Rui
Eduardo Paes
Concerto
na Trem Azul Jazz Store. Programado para as 19h30 de 16 de Dezembro, estava
o sexteto de Ernesto Rodrigues, passado circunstancialmente a quinteto
por impossibilidade prática de participação de Sei
Miguel. Com Ernesto Rodrigues (viola, violino) alinharam Manuel Mota (guitarra
eléctrica); Alípio Carvalho Neto (saxofone tenor); Guilherme
Rodrigues (violoncelo, trompete de bolso) e Elsa Vandeweyer (vibrafone,
percussão). Músicos que colocaram cá fora todo o
seu potencial, no puro prazer da alma que é dar e receber –
tudo aquilo que o diferencia do “negócio” corrente,
o deve e haver da hodierna mediocridade contabilística. Sons mil
correram de um lado para o outro em aparente auto-gestão. Difícil
é tornar isto num sistema, uma linguagem articulada e compreensível.
Mais ainda, quando o verbo nasce, projecta-se e interage com os outros,
tudo no mesmo momento, que já é passado ainda mal se esboçou.
O quinteto soube fazê-lo com sagacidade, dando ao som um corpo,
sangue, ossos, músculos, pele e vida própria. O todo, sinergeticamente,
foi superior à soma das partes, numa alegoria de sociedade em rede,
na qual a comunicação multipolar circula em todos os sentidos,
sem um centro tonal ou difusor para além da direcção
e das vozes que lhe atribuem o sentido de ente organizado. É a
auto-regulação que põe ordem na comunidade específica
de discursos e registos, diferentes na sua singularidade, os quais, para
se entenderem entre si e fazerem-se entender pelo público, têm
que falar um dialecto comum. E falaram.
Free jazz, entendido como outro jazz, tocado hoje por músicos versados
em vários léxicos, poliglotas musicais que se inspiram em
todo o material sonoro que transportam em si, no momento e na memória.
Memória do jazz, tal qual ele se praticou sobretudo desde a década
de 60 para cá, da improvisação liberta dos acordes
ou inspirada na New Thing, que já não tem a ver com esse
processo histórico, mas que dele herdou a liberdade de escolha
de métodos, formas, conteúdos, práticas e caminhos,
que ajudam à sua compreensão, na medida em que todos os
sons são válidos, desde que cageanamente integrados coerentemente
no discurso principal. Esta é pois uma prática musical que
assenta 100% no imediato, a arte em movimento à procura de algo
diferente do que já existe.
Assistir em directo ao desenvolvimento desta música é um
desafio que poucos querem permitir-se a si próprios: o de tentar
compreender e apreender como é que uma forma de arte evolui de
dia para dia, ver o filme (imagens em movimento) em vez da fotografia
(imagem estática), que apenas capta o momento único e irrepetível.
Sentir a entrega generosa dos artistas, o quanto eles nos querem dar sem
nada receber em troca, excluindo a nossa atenção concentrada
e o aplauso final. É o desígnio destes mprovisadores que
trabalham para manter a chama acesa, convocando-nos para participar activamente
no processo criativo, parte do incessante devir que é a vida e
a criação artística.
Neste sentido, por tudo isto e pelo mais que é indizível,
foi um privilégio assistir à actuação do quinteto
liderado por Ernesto Rodrigues, com Manuel Mota, Alípio Carvalho
Neto, Guilherme Rodrigues e Elsa Vandeweyer. Espantosa interacção
das cordas (Mota a tocar mais alto do lhe costumo ouvir, com um som sólido,
potente e granulado, que contrasta bem com a macieza das cordas da viola
de Ernesto Rodrigues); Alípio e meter-se bem pelo meio, driblando
com o sax tenor potente e volumoso de sempre, na pele de hábil
promotor das dinâmicas do grupo. Do outro lado, na ponta esquerda,
Vanderweyer alternava entre ataques de percussão marcial e maviosas
sonoridades do vibrafone, até encontrar um ponto de equilíbrio
entre os dois polos. Guilherme Rodrigues, jovem talentoso possuidor duma
rodagem muito considerável, primou nas cordas do violoncelo (que
belo som!). Em pocket trumpet lançou clarões de luz para
o meio da refrega, picando Alípio C. Neto para um mano-a-mano que
atingiu proporções de cuja possibilidade não suspeitaria.
Em muito reforçaram essa misteriosa relação entre
o que é da dimensão humana e o que pertence à outra,
a cósmica, numa predisposição espiritual de intemporalidade
que celebra o gosto de criar e de estar vivo em toda a parte.
Música inquietante, expressionista, doce e agressiva, absurdamente
grotesca por vezes, angélica noutras – a mesma matéria-prima
inerente à condição humana – que não
pretende empatizar à superfície, mas causar incómodo
bastante para desinquietar e desinstalar as consciências, algumas
delas adormecidas por 100 anos de Jazz.
Numa segunda parte, um jantar e três horas depois, na intimidade
dos poucos e resistentes circunstantes, tocaram Ernesto Rodrigues, viola
e violino; Inês Almeida, violino e viola; Pedro Costa, violino,
violoncelo e guitarra eléctrica; Manuel Mota, guitarra eléctrica
e viola; Hernâni Faustino, violoncelo; Abdul Moimême, pocket
trumpet e guitarra; Travassos, crackle box; e, perdoe-se-me a imodéstia,
as grandes revelações da madrugada: Lizuarte “Li Cherry”
Borges, magnífico em trompete de bolso; e, para grande surpresa
minha, Eduardo Chagas, em crackle box e violino. Sem palavras, mas com
muito amor à música. Eduardo Chagas
(Jazz e Arredores)
Ontem
foi dia para a comunidade "improv" nacional mostrar a sua vitalidade.
A loja Trem Azul recebeu um quinteto liderado por Ernesto Rodrigues, que
para além dos habituais acompanhantes Guilherme Rodrigues e Manuel
Mota, incluiu dois elementos roubados ao grupo jazz IMI Kollektief: Alípio
Neto e Elsa Vanderweyer. Ao contrário do que é habitual
nas formações de Rodrigues, desta vez as propostas de aproximação
ao silêncio foram abandonadas, em vez disso o grupo deu uma sessão
de música free potentíssima. O princípio de noite
de sexta-feira observou um espectáculo de música livre intensa,
onde os sopros (Alípio no tenor, Guilherme no trompete de bolso)
foram determinantes. Nuno Catarino (A Forma do Jazz)
Na
terça-feira, o violista Ernesto Rodrigues - acompanhado por Guilherme
Rodrigues (violoncelo), Masafumi Ezaki (trompete), Alessandro Bosetti
(saxofone) e Angharad Davies (violino preparado) - comandou um barco cuja
música parece, muitas vezes, um navio de madeira no alto-mar. As
madeiras que rangem, incham, chocam, estalam, o vento e o mar ali perto,
a eminência de uma tempestade que não chega a acontecer.
António Pires (Blitz)
Over all, Creative Sources is an average label, releasing primarily experimental
jazz, improv, indie, and experimental music. However, the downside to
this, is alot of the stuff is similar in sound due to the label owner
Ernesto Rodrigues participating in alot of the releases. So, to the new-comer
to this label, it may come off as a bit tedious. However, apart from that
only 'flaw', the label has managed to release alot of excellent and unique
music over the years. (Discogs)
[...]
Ao lado de
gente como Carlos Zíngaro ou Carlos Bechegas fez a história
da música improvisada em Portugal. Actualmente gere a editora Creative
Sources Recordings, que apesar da reduzida dimensão já editou
alguns dos mais importantes músicos europeus e já se tornou
uma referência da música improvisada mundial – apesar
de em Portugal ser quase desconhecida. Já tocou com músicos
de renome internacional como Tetuzi Akyiama ou Hans Koch e actua regularmente
em Lisboa apresentando uma variedade imensa de projectos onde a música
é concentrada à sua essência e surge livre como necessidade
vital. Se neste momento podemos dizer que há uma certa visibilidade
para a música improvisada em Portugal, muita da responsabilidade
é devida a este homem, improvisador e impulsionador, Ernesto Rodrigues.
Nuno Catarino (Bodyspace)
Ernesto
Rodrigues’ fine—and very productive—Creative Sources
imprint has rocketed into the forefront of improv imprints specializing
in various strains of electroacoustic and “lowercase” musics
(the labels are oft-debated, so insert asterisks as you please). The latest
batch of releases isn’t as consistent as one might hope for, but
there are still many rewarding discs, some exceptional moments, and a
much-appreciated opportunity to hear new musicians at work. Jason
Bivins (One Final Note)
Neste
passado sábado a loja Trem Azul foi palco de um espectáculo
de música improvisada que reuniu músicos de Madrid e Lisboa.
Sob a designação AA Tigre & Free Improvisors, juntaram-se
no palco sete músicos que desenvolveram uma notável sessão
de improvisação centrada em aproximações ao
silêncio, onde a concentração colectiva foi impressionante
– ainda mais admirável porque foi a primeira vez que tocaram
juntos. A orientação era dada pelos sopros (Andres Velazquez
em sax tenor/flugelhorn e Jesus Ramirez na tuba) ao lado de Ernesto Rodrigues
(viola/violino), seguindo-se as sugestões oportunas do violoncelo
de Guilherme; o clarinete juntava-se às sugestões dos sopros,
formando um trio que quase não tocou notas, apenas efeitos; as
guitarras (eléctrica e acústica preparada) acrescentavam
outros efeitos, por vezes quase imperceptíveis. Depois de dois
primeiros temas extremamente sossegados, houve espaço para descomprimir
no tema final, com crescendos um pouco mais abrasivos. Inesperadamente,
uma união ibérica em improvisação reconfortante.
Nuno Catarino (A Forma do Jazz)
O
violinista e improvisador português Ernesto Rodrigues anda numa
roda viva. Depois dos concertos em Lisboa que fará nos próximos
dias (ver detalhes), a 22 de Janeiro inicia uma estada em Berlim (Ausland),
onde realizará concertos até 1 de Fevereiro, com o guitarrista
luso Manuel Mota.
A 7 de Fevereiro partem ambos em digressão para os EUA, até
4 de Março. Vão arrasar o afamado Seattle Improvised Music
Festival, entre 8 e 12 de Fevereiro; dali dão um salto à
canadiana Vancouver e depois descem até S. Diego, na Califórnia,
com passagem por toda a West Coast. Partirão depois rumo à
East Coast, terminando o périplo em Nova Iorque, quase um mês
depois. Em cheio! Excelentes notícias da internacionalização
da moderna música improvisada portuguesa. E mais, o número
de Fevereiro da revista Down Beat traz um artigo inteiramente dedicado
ao trabalho de Ernesto Rodrigues. Parabéns, Ernesto! Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
O
grupo constituído pelo norte-americano Wade Matthews, por Bechir
Saade e pela dupla Rodrigues (Ernesto e Guilherme) forjou uma sessão
de extrema de lowercase, sustentada na concentração do quarteto
que optou por seguir numa estrada permanente de baixa latitude, sem medo
do silêncio - acima de tudo, notou-se uma permanente consciência
colectiva. Nuno Catarino (A Forma do Jazz)
A
música que os portugueses Ernesto Rodrigues e Guilherme Rodrigues
(viola e violoncelo, respectivamente), o norte-americano Wade Matthews
(flauta alto, clarinete baixo e laptop) e o libanês Bechir Saade
(clarinete baixo, nay) tocaram na primeira parte do duplo concerto dia
17 de Janeiro, na Trem Azul, aproxima-se esteticamente de algumas correntes
da composição contemporânea. Explorações
musicais em que cada fragmento sonoro encerra conjuntos maiores ou menores
de outros sons, harmónicos insinuados pelas cordas contra e a favor
dos sopros, contrastando altas e baixas frequências em movimento.
Música que em grande medida explora a gestão do silêncio
como ausência de som (que não é o mesmo que ausência
de música), a frase que se começa a desenhar mas que se
deixa propositadamente inacabada, encaixa noutra de imprevisível
origem, duração e direcção, que instiga a
formação de contrastes e aproximações, matizes
diversos de sombra e luz, cambiantes que se mesclam e complementam, notas
soltas para quem as quiser apanhar e passar a outro. Ruídos cageanamente
integrados na paisagem sonora, construção, ruptura, inflexão,
acervo de assimetrias discursivas que se estabelecem propositadamente
ao acaso, indeterminadas e instantâneas.
[…] Nada está escrito no papel, como na linguagem, em que
a fala precede a escrita. No mesmo sentido, a improvisação
serve finalidades de comunicação entre os músicos,
e entre estes e o público, resultando na revelação
de mundos sonoros complexos e misteriosos, que se posicionam para lá
das convenções do tonalismo, atonalismo, reducionismo ou
minimalismo, free jazz e livre-improvisação, fruto da interacção
consciente entre músicos com diferentes backgrounds, formações,
origens culturais e geográficas, irmanados no propósito
de criação sonora em comum, em busca de qualquer coisa:
outras formas de produção e de escuta musical. Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
O
Hot Clube é o local sagrado onde religiosamente se reúne
e convive a comunidade do jazz português - de um certo jazz, melhor
dizendo, já que o HCP tem preferência por artistas e sonoridades
mais clássicas e regulares e por norma desdenha quem se aventure
em liberdades maiores. Apostado numa programação canónica,
são raras as vezes que vemos a cave da Praça da Alegria
arriscar projectos free. Foi por isso que nesta passada quarta-feira assistimos
com muito prazer à apresentação do auto-denominado
“Free Nonet”.
Inicialmente agendado como sexteto, no dia do concerto o grupo estendeu-se
num invulgar noneto – uma formação grande, demasiado
grande para o minúsculo palco. Ainda assim couberam lá todos,
nove músicos portugueses (ou residentes por estas bandas). Alinhados
numa dinâmica de free jazz exemplar, os sopros tomaram a dianteira
e conduziram a noite. O tenor do brasileiro Alípio Carvalho Neto
transbordou energia, o trompete (Ricardo Pinto) procurou espaços
para brilhar individualmente (embora descurando o grupo) e o trombone
de Eduardo Lala esteve soberbo, tanto a como a interagir com os colegas
como a solar sobre o colectivo. Peter Bastiaan dedicou pouca atenção
ao saxofone alto, preferindo ocupar-se da percussão, mas teve inspiração
para o momento spoken word da noite (Alípio imitou-o, mas sem o
mesmo fulgor).
Ernesto Rodrigues surgiu afastado da habitual estética de livre
improvisação lowercase e, apesar da agitação
tirânica dos sopros, conseguiu impor a voz do seu violino - tarefa
difícil mas conseguida com arte. Na guitarra apareceu Luís
Lopes, substituto do inicialmente previsto Manuel Mota. Optando por um
fraseado guitarra-jazz de pendor tradicionalista, tratou de seguir a direcção
do grupo e cumpriu (mas, em todo o caso, seria preferível uma abordagem
menos ortodoxa, mais liberta). Rodrigo Pinheiro, um jovem que há
poucos meses integrou o projecto “Cobra” de John Zorn, encarregou-se
do piano e manteve o bom nível, particularmente intenso nos diálogos
com as cordas – o duo com o contrabaixo (Hernâni Faustino)
foi do melhor da noite. Na bateria, Rui Gonçalves foi responsável
por alguns dos momentos mais fortes e por algumas mudanças de direcção.
O templo foi invadido e os nove conquistadores não se acanharam
a impor o seu estardalhaço free. Entre subidas, acalmias, turbulências,
paragens, provocações, respostas, sugestões, convergências,
dispersões, união e individualidade, foi uma noite de grande
música: intensa, cheia, reconfortante. A festa ousou prolongar-se
por horas impróprias para gente honesta e trabalhadora, mas ninguém
se ralou. Afinal de contas, são sempre de aproveitar as oportunidades
em que o Hot se transforma, pleno de liberdade, num verdadeiro Clube.
Nuno Catarino (Bodyspace)
Acaba
de ser editado o mais recente trabalho do violinista Ernesto Rodrigues.
Esta edição é um duo com o alemão Hans W Koch,
editado pela netlabel CtrAltCanc. "Nostalgia" é o resultado
da combinação de ideias de uma dupla que gera um evoluir
constante de texturas que se alimentam progressivamente. Hans W Koch manipula
a lógica electrónica, pela intromissão de bips e
blips numa cadência marcadamente irregular. Ernesto Rodrigues introduz
outros elementos, por vezes registos suaves, outras vezes arrancando à
força da viola rangidos da madeira. Seguindo a clássica
estética lowercase, raramente a música sobe o volume –
uma das raras ocasiões em que tal acontece é no crescendo
final da primeira peça. Entre as quatro faixas que preenchem esta
edição, "Nostalgia" prende pela atenção
microscópica que é dada ao detalhe, a cada instante sonoro,
a cada ínfimo pormenor. E, apesar de se tratar de uma parceria,
o produto final soa coerente e coeso. Nuno Catarino
(A Forma do Jazz)
Ernesto Rodrigues has, of all players in the field of non-idiomatic improv,
been the most manifest on the internet, with what is now already his third
net-label release (also having his music out on ctrl-alt-canc and Stasisfield).
Within this present constellation (together with Libanese avantists Christine
& Sharif Sehnaoui) a musical universe is conjured which, lacking any
figurative tendencies, can be characterised as a very hylic affair - dealing
as it does with the 'lowest' portion of musical matter, letting for no
instance of sublimation. The grittiness, the very elemental quality of
the sonorities are something of a very coarse-definition blow-up of the
respective instrument's material properties (being violin, guitar &
saxophone), a white-noise produced by solely analogue mechanics. Under
the stress & strain of several extended techniques the acoustic possibilities
that these instruments intrinsically possess are elicited from the marrow
of their material structure, which is not a pretty picture. It is, in
fact, not a picture at all, but rather an instance of the deconstruction
of Maya. Mark Pauwen
Somam-se
as novidades da portuguesa Creative Sources Recordings, uma das mais dinâmicas
editoras independentes do mundo e arredores. E cada vez com maior presença
de instrumentos eléctricos e electrónicos, comprovando que
as novas tendências da improvisação já não
privilegiam o instrumentário acústico convencional, aplicando-lhe
técnicas extensivas ou alternativas. Rui
Eduardo Paes (Ananana Newsletter)
O
concerto da Variable Geometry Orchestra de ontem à noite na ZDB
foi um acontecimento altamente estimulante, tanto para quem tocou, como
para quem assistiu. Uma hora inteira de música livremente improvisadada,
em formato de big band, com um mínimo de organização
da parte de Ernesto Rodrigues, que optou por conceder ampla liberdade
aos vinte e muitos improvisadores, para fazerem fermentar o som e dar
largas ao desenvolvimento da linguagem musical que já é
própria desta orquestra. Uma vez mais, Hernâni Faustino e
José Oliveira protagonizaram o papel da dupla de propulsionadores
rítmicos do melhor que em Portugal existe no género. Souberam
impulsionar o colectivo alargado para uma das suas mais interessantes
e enérgicas prestações, que encontra referências
tanto do jazz como da livre-improvisção. O que faz desta
orquestra um caso único, felizmente repetível. Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
Congregando
músicos das mais diversas proveniências, da electrónica
à livre improvisação e sem esquecer o jazz, a Variable
Geometry Orchestra (VGO), liderada pelo violinista Ernesto Rodrigues,
é uma formação de características únicas
no panorama das músicas improvisadas em Portugal.
No passado dia 1 de Abril, a Galeria Zé dos Bois proporcionou-nos
uma das raras ocasiões para assistir a uma actuação
ao vivo deste agrupamento de alargadas dimensões.
Uma das novidades deste concerto, fazendo jus à própria
designação da orquestra, foi o assinalável incremento
do número de músicos participantes, que agora quase chegou
aos trinta. Este engrossar das fileiras da VGO, que na actuação
anterior havia “apenas” contado com dezasseis elementos, consistiu
essencialmente no reforço do naipe dos sopros, secção
menos bem representada face à crescente preponderância da
instrumentação electrónica na estratégia da
orquestra.
Destaque, assim, para os regressos de músicos como Rodrigo Amado
e Eduardo Lalá, e para a estreia de um saxofonista que muitas cartas
tem dado ultimamente – Alípio Carvalho Neto. No entanto,
ao equilíbrio instrumental que Ernesto Rodrigues procurou conferir
ao conjunto contrapunha-se um risco acrescido – a susceptibilidade
de tanto as madeiras como os metais se sobreporem sem grandes dificuldades
aos demais instrumentos. Se a isto somarmos as dificuldades inerentes
às condições acústicas da sala, um espaço
manifestamente exíguo para a dimensão da orquestra, o que
obrigava os músicos a disporem-se muito perto uns dos outros, não
havia dúvidas que estávamos perante uma performance de elevado
risco.
A verdade é que ao longo da quase hora de música que nos
foi proporcionada, todos os intervenientes demostraram estar à
altura dos desafios que a priori se colocavam. Pese o facto de alguns
destes músicos nunca antes terem tocado entre si, o tutti funcionou
sempre como uma unidade consistente e equilibrada, prevalecendo entre
os elementos da orquestra o espírito de interacção
e comunicação sem o qual um projecto desta natureza dificilmente
poderia vingar. E atestando isso mesmo, Ernesto, como coordenador de esfoços
e sensibilidades, apenas pontualmente foi obrigado a interferir no rumo
dos acontecimentos, mas sem que com isso constrangesse em demasia a liberdade
criativa dos músicos.
Em linha com outras actuações, um aspecto a louvar neste
concerto foi o facto de a VGO ter evitado seguir de forma declarada e
previsível os ensinamentos de predecessores emblemáticos
neste género de experimentações (Sun Ra, Globe Unity
ou London Improvisors Orchestra). Por exemplo, se as notas de apresentação
do concerto deixavam antever uma aposta assumida numa estratégia
de alternância entre irrupções expressionistas e períodos
de serenidade e acalmia, sentiu-se, bem pelo contrário, que as
situações fluíram com naturalidade e ao sabor da
inspiração e intuição conjuntas.
De referir também que raras vezes um ego sobressaíu. Aliás,
duas foram as excepções em que tal aconteceu. Primeiro foi
Eduardo Lalá, um músico que se sente à vontade tanto
em contextos de música escrita como improvisada, que sobreluziu
num poderoso e pujante solo. Depois, e já perto do final, Peter
Baastian irrompeu da assistência para, numa entoação
grave e sibilina, declamar densas e inspiradas galimatias, naquela que
acabou por ser uma das maiores supresas da noite.
Volvida mais uma importante etapa de maturação da VGO, os
próximos concertos, que se espera virem a ocorrer com mais frequência
do que os anteriores, virão certamente confirmar que este é
um projecto com amplo potencial de evolução. E, no seguimento
do que nos tem sido dado a apreciar, é provável que as suas
preocupações assentem no aprofundamento de dois vectores
essenciais – a exploração das inúmeras possibilidades
de desdobramento das várias secções orquestrais,
e a efectiva e eficiente explanação de texturas e nuances
instrumentais.
Ficamos então a aguardar por novos desenvolvimentos. João
Aleluia (Jazz.pt)
A
cada concerto, a VGO / Variable Geometry Orchestra renova-se em graus
que se assinalam e registam entre o ínfimo e quase imperceptível,
e o passo de gigante entre a formulação precedente e aquela
que já fica próxima no horizonte dos nossos desejos de liberdade,
movida por um motor potente que ruge nas suas expressões mais variadas,
criando jogos intermodais de abstracção profunda –
utopia de liberdade plena, reflectida num corpo orquestral com personalidade
em construção, mas em que habitam sinais identitários
próprios.
Neste melting pot da comunidade improvisadora de Lisboa, sucedem-se os
quadros e os momentos de beleza massiva e extravagante. Entre o momento
inicial e o estertor final, evocam-se sons próximos e longínquos,
novas e antigas imagens visuais projectam-se num espaço de grandes
porporções, onde se desenha o nascente e o poente, e em
que a energia explode numa tridimensionalidade espectral que nos sacode
corpo e espírito.
O que fica na memória é uma catedral em que habitam sentimentos
que perduram na partilha da experiência radical, entre a catarse
e o êxtase abrasador. Eduardo Chagas (Jazz
e Arredores)
Foi um Acontecimento! A VGO é um acontecimento!
Foi a primeira vez que a vi. Terei estado no mar ou em Marrocos mas sempre
em lua nova, com certeza...
Foi cataclítico! Uma catarse! Uma Big Ban(g)d!
(Quando dei por mim estava debaixo dum umbral de porta, agarrado a um
beiral, não fosse a casa vir abaixo...).
Para mim, mais do que isto só o Sun Ra em Vilar de Mouros em 1982.
Parecia-me impossivel poder-se chegar tão perto... engano meu,
com a VGO tudo há-de ser possível!!!
Continuemos!
Sempre!
Obrigado. Rui Portugal (Jazz e Arredores)
Foram
boas as propostas apresentadas em série pelo trio que agrupou Alípio
Carvalho Neto, Luciano Vaz e Ernesto Rodrigues para uma sessão
de improvisação livre ao cair da tarde, intramuros da Jazz
Store da Trem Azul, à Rua do Alecrim, em Lisboa.
Aliciante era, à partida, poder assistir em directo à maneira
como os três músicos, com backgrounds diferentes e estilos
muito diversos, iriam suscitar e resolver os problemas postos por esta
especial forma de comunicação e criação musical,
potencialmente reforçada pelo facto de os três nunca antes
terem tocado juntos.
Percursos e discursos pessoais diferentes e no entanto três músicos
com uma característica comum: a vontade de se questionar e de procurar
outras formas de expressão individual e colectiva, enquanto extensões
do trabalho anteriormente produzido, ou como rupturas com métodos
e fórmulas habitualmente praticadas, mercê das novas possibilidades
sonoras que só podem nascer do compromisso que os músicos
estabelecem entre si, tacitamente. O processo é o da comunicação
via improvisação total; o fim, assume uma face dupla: o
da criação musical estimulada pelo ambiente de ampla liberdade
e simplicidade formal; e a entrega ao público, instantaneamente,
dos resultados assim obtidos.
Alípio Carvalho Neto investiu em novas soluções harmónicas
no saxofone tenor, explorando com eficácia técnicas e enunciados
caros a um estilo híbrido de jazz e de improvisação
livre, a caminho de se transfigurar através do enriquecimento da
sua própria linguagem. Luciano Vaz, violoncelista de orquestra
sinfónica (Rio de Janeiro), de passagem por Lisboa, lançou-se
por caminhos de pesquisa sonora que remetem para um universo próximo
da composição contemporânea. Bom improvisador (tive
a oportunidade de assistir a três das suas apresentações
ao vivo em Lisboa, em diferentes contextos e formações),
subtil, delicado e atento aos detalhes do ambiente sonoro geral, que instigava
e ao qual reagia, Luciano Vaz soube gerir com parcimónia esse poder
que está na mão do músico improvisador: o de intervir
e o de saber escutar, para de novo entrar no discurso.
Ernesto Rodrigues, dos três porventura o músico mais familiarizado
com a “teoria” e a prática da improvisação
livre, deu uma importante contribuição para a solidez da
proposta global, introduzindo as nuances e os matizes de cor e textura
que o desenvolvimento das operações pedia, problematizando
a direcção e orientando o fluxo colectivo da improvisação
em trio.
Para a despedida de Luciano Vaz, fechando o ciclo da sua estadia entre
nós, está em curso a preparação de um concerto
final de improvisação livre, com violoncelo, saxofone tenor,
violino, trombone e percussão, a ter lugar esta semana, em Lisboa.
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
[...]
Para o fim do festival ficou guardada a actuação da Variable
Geometry Orchestra. Esta orquestra, dirigida por Ernesto Rodrigues, apinhou
o palco da loja Trem Azul com duas dezenas de elementos. Partindo da improvisação
livre, a música segue através das múltiplas sugestões
individuais, quebrando-se nas indicações (breves, sóbrias
mas marcantes) do maestro Rodrigues. A estrutura da instrumentação
deste grupo começa por sugerir uma aproximação ao
free jazz (pela utilização de inúmeros sopros), mas
acaba por enveredar por estéticas variadas – o que é
derivado também da utilização de instrumentos menos
usuais (tapes, acordeão, electrónicas). Se a multiplicidade
de sugestões é enorme, a sua exposição acaba
por ser reduzida, ficando comprometida pela sobreposição
constante das vozes. Ainda assim há espaço para alguns momentos
individuais - Alípio C. Neto, Sei Miguel, Peter Bastiaan ou Ernesto
Rodrigues, por exemplo. Nas diversas formas de música que ali surgiram
sobrepostas, a aposta VGO valeu enquanto laboratório de experimentação
total. Foi um final de risco para um festival que conciliou músicos
consagrados com outros ainda em crescimento, entre o jazz e a improvisação.
Nuno Catarino (Jazz.pt)
Trio
de trombone, guitarra acústica e viola. Mathias Forge (trombone)
e Cyril Epinat (guitarra acústica) músicos franceses de
Lyon, em curta digressão pela Europa (segue-se Barcelona), encontraram-se
com o violinista português Ernesto Rodrigues para uma sessão
musical descontraída que compreendeu dois temas compostos e executados
em directo. Assumida a iconoclastia face às várias tradições
musicais que assentam no uso da melodia e das regras rítmicas e
harmónicas da música ocidental – característica
das novas correntes da improvisação livre – o trio,
refractário ao uso do fraseado convencional, empreendeu a sua jornada
musical tocando os instrumentos em toda a extensão, mais enquanto
artefactos geradores de som, que na sua utilização tradicional.
Tal abordagem incluiu os aspectos periféricos da execução,
remeniscente da musique concrète (sons fragmentados que se aglutinam
para formar um contínuo coerente) ou no granulado digital dos laptops,
transposta, reformulada e adaptada para um ambiente acústico de
baixo volume, a exigir do ouvinte total concentração para
melhor apreciar os interessantes jogos de interacção tímbrica.
Aconteceu terça-feira passada, 30 de Maio, na Trem Azul Jazz Store,
em Lisboa. Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
A
sexta sessão do ciclo “Der Gelbe Klang (O Som Amarelo)”
recebeu a denominação “Contraposições”
e agregou um quinteto de cordas. Foi uma ocasião rara para assistir
ao encontro entre dois dos maiores improvisadores portugueses contemporâneos,
ambos violinistas: Carlos Zíngaro e Ernesto Rodrigues. A estes
dois, juntou-se um trio multinacional: Noid (violoncelo, austríaco),
Ulrich Mitzlaff (violoncelo, alemão) e Miguel Leiria Pereira (contrabaixo,
português).
Ao contrário do que aconteceu nas anteriores, esta sessão
foi completamente acústica - e também despida de complementos
(vídeo/multimédia) - concentrando a atenção
toda na composição sonora. Os músicos participantes
neste quinteto, formado propositadamente para a ocasião, não
deixaram os créditos por mãos alheias, forjando uma sessão
de improvisação de nível superior. Começando
por utilizar uma panóplia de métodos e recursos recrutados
à livre improvisação, a música seguiu por
formas surpreendentemente harmonizadas.
Com os maiores pontos de interesse situados entre a viola de Ernesto e
o violino de Zíngaro, a dupla de violoncelos (Mitzlaff/Noid) expandiu
as camadas sonoras, respeitando as ideias dos colegas mas introduzindo
elementos próprios. O contrabaixo acabou por ser, até pela
própria natureza, o menos interventivo, actuando na sombra em nome
da conciliação colectiva. Trabalhando quase sempre com arco,
os cinco elementos do quinteto foram desenvolvendo as suas ideias assentes
numa lógica colectiva.
Como se guiados por uma estrutura invisível, os músicos
seguiram pelas variações e picos, alcançando um intenso
grau de musicalidade exclusiva. Com uma manifesta consciência histórica,
o quinteto “Contraposições” foi recolhendo inspirações
de épocas e estilos diversos, elaborando elevados níveis
de melodia em organização instantânea. Das várias
sessões promovidas por este ciclo da associação Granular
esta terá sido, sem grandes dúvidas, a mais compensadora.
Nuno Catarino (BodySpace)
Perante
um público interessado e entusiasta, a Variable Geometry Orchestra,
em formato de média dimensão (14 elementos) actuou ontem,
12 de Junho, à noite (22h00) ao ar livre numa praça do Centro
Histórico de Abrantes, no âmbito das festas populares que
ali decorrem de 9 a 14 de Junho, comemorativas dos 90 anos da elevação
de Abrantes a cidade.
Foram executadas duas peças de composição instantânea,
uma de exposição mais demorada e outra muito curta, breve
epílogo a rematar a actuação de cerca de uma hora,
preenchida com longos drones sucessivamente sobrepostos, ricos em tonalidades
quentes. Sons de cordas, saxofones, acordeão, melódica e
clarinete, combinados com as asperezas dos metais e o anguloso da electrónica
(digital e analógica) e da percussão, elevaram a música
a momentos de tamanha intensidade, fervor e clímax sonoro, alternando
com ambientes mais suaves, impressionistas e quase melancólicos,
na descida aos subterrâneos.
De novo à superfície, intervalados por passagens de alto
volume e densidade polifónica, perigosas e ameaçadoras no
seu enunciado, serviram os diferentes andamentos de plataforma para a
moderada exposição solística por dentro e por cima
da massa sonora, explorando as nuances tímbricas dos instrumentos
e a imensa paleta de recursos, tonalidades, movimentos rítmicos
e texturas que caracterizam o som da VGO. Que cada vez mais se refina
e concentra na subtil exploração das imensas possibilidades
da improvisação colectiva, exponencialmente alargadas através
da (re)combinação harmónica de todos os sons válidos
e disponíveis entre as alturas celestes e os infernais abismos.
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
Dass
die reduktionistische Improvisation in Lissabon mit dem Label von Ernesto
Rodrigues (*1959, Lisboa) einen Brückenkopf gebildet hat, ist in
BA immer wieder einmal kurz aufgeblinkt, mit 23 Exposures (CS 003), Ficta
CS 005), Assemblage (CS 007), Tidszon (CS 014) & Kunststoff (CS 017).
Neben Arbeiten der Labelmacher selbst, tauchten dabei Namen wie UNSK,
Martin Küchen und Birgit Ulher auf. Was bisher aber nur Vermutung
war, ist nun Gewissheit, Creative Sources hat sich zu einem kleinen Paralleluniversum
der ‚stillen‘ Musik entwickelt, zu einem in Portugal lokalisierten,
aber weltumspannenden Sammelbecken für Experimente am Rande des Hörbaren
und des Beinahenichts. Dazu mit einem Hausdesign, meist von Carlos Santos,
das feine Entsprechungen für die Klangwelten zu finden versucht.
(Bad Alchemy)
A
versão da Variable Geometry Orchestra que actuou sábado,
23 de Junho de 2006, no Teatro Nacional D. Maria II, no âmbito do
ciclo "Músicas no Átrio do TNDM II, à Meia-Noite",
deu bem a medida da reacção química que se produziu
durante os perto de 45 minutos que demorou a exposição de
música composta, harmonizada e executada em directo, sob a direcção
de Ernesto Rodrigues. Ernesto parametrizou a música através
de breves indicações dadas aos executantes sobre tempo,
dinâmicas e intensidade requeridas em cada um dos andamentos, desde
o início marcado pelo sincopado das baixas frequências da
electrónica de Adriana Sá, até à grande massa
sonora que explode, estilhaçando em todas as direcções.
Free jazz e improvisação orquestral ao serviço da
reinvenção do conceito de big band. Catarse colectiva apontada
em direcção ao espaço, com os mais diversos apontamentos
pelo meio, linhas cruzadas e sucessivas de duos, trios, quartetos, a que
se foram adicionando outros instrumentos, num trabalho colectivo de grande
envergadura.
Nessa medida, é absolutamente fascinante sentir o chão a
tremer debaixo dos pés, como se a música irrompesse do centro
da Terra e explodisse magnífica diante dos músicos e do
público, que enchia por completo a sala. Espaço que chegou
a ser exíguo para conter os infindável labirinto de corredores
harmónicos, a luxuriante selva de texturas que naturalmente se
agrupam em estruturas que são elas próprias momentos de
improvisação colectiva de elevado calibre, que abriram espaço
para breves intervenções solísticas de Jorge Lampreia
(flauta e saxofone soprano), Alípio Carvalho Neto (saxofone tenor)
e Sei Miguel (trompete de bolso), a partir das quais o grupo, ouvindo
e reagindo às indicações, extrapolou para os mais
diversos clusters de associações tímbricas, até
tudo se diluir na grande voz – energia assustadora, beleza primitivista
e sofisticada na sua complexa simplicidade. Música que transcende
os seus próprios limites, montada numa arquitectura sonora que
se eleva às alturas, para depois implodir e retomar ao ponto em
que se lança a primeira pedra. Vida, liberdade e celebração.
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
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