Transparent - Fluorescent Sound Fibres cs677

 

 

 

 

 

 

 

 

O violoncelista alemão, residente em Portugal, Ulrich Mitzlaff fechou o ano com um novo disco em que leva ainda mais longe as pesquisas sonoras (e do seu instrumento) a que se tem dedicado, num curioso xadrez entre o conceptual e o improvisado. As duas peças de “Transparent” são, na verdade, a mesma, tocadas com perspectivas e instrumentação diferentes. Na primeira, é o violoncelo que acciona os objectos que ouvimos em primeiro plano, só mais adiante na peça sendo possível reconhecer o cordofone em causa. Mitzlaff como que salta por cima da ideia de “violoncelo preparado”, e não simplesmente para colocar as preparações em primeiro plano. O violoncelo serve, sobretudo, como “medium” para os resultados pretendidos, pelo menos até chegarmos a um equilíbrio entre o violoncelístico e o objectual, de tal modo que, sem vermos, não percebemos bem o que é do domínio de uma e da outra destas vertentes. Por fim, chegamos a um “droning” do violoncelo que parece ter várias camadas de gravação e algum processamento electrónico, mas de um modo impossível de confirmar seja pela nossa percepção como pela ausência de dados na ficha técnica.
O factor de invisibilidade (imaginante, inclusive) do que está a ser feito, a fim de manter o mistério da criação áudio em curso, é chave neste CD e, no entanto, trata-se de uma música em que sentimos o espaço de forma muito intensa. O que ouvimos, ouvimos claramente através do espaço, ou seja, com a moldagem deste. Mais uma vez, não há referência nem ao local onde o registo foi realizado nem em que condições. Não é um esquecimento: esta ausência de informação será intencional, servindo para dar ambiguidade à música e desconcerto a quem a ouve. A segunda faixa surge com um piano, instrumento com que nunca tínhamos ouvido Ulrich Mitzlaff actuar: ficamos com a sensação de que o dito está a ser manipulado num edifício fabril em ruínas. Esta versão alternativa do tema começa por estar centrada no piano, sem preparações nem articulações com objectos “simpáticos”, e se também ouvimos este “tocado” pelo espaço, Mitzlaff opta por uma identificação instrumental mais limpa e óbvia. As mutações vêm depois, mas desta vez são os objectos que agem como “medium” das explorações pianísticas. E não, não é o formato do piano preparado que surge: os objectos são usados nas cordas do interior do piano como fazem os guitarristas experimentais. Em suma, temos aqui aquele que é, talvez, o disco mais intrigante de 2020. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)