Eclipse cs695

 

 

 

 

 

 

 

 

This atmospheric quarter with Father and Son was recorded in November 2018 at Namouche Studio, Lisbon. It includes João Valinho and Mariana Carvalho, who is a revelation! The quartet play two track: nearly 36 minutes long "Solar Eclipse", and 33 minutes long "Lunar Eclipse". The first one is a typical free improvised minimal music with plenty of strings, inside piano and electronics, so typical for the Rodrigues family. The novel thing is the use of the harp by Ernesto, The second piece is similar, employing a lot of pauses and fragmented sounds. Typical, but as absorbing as always. Fantastic free improvised chamber music! Maciej Lewenstein

 

 

Se são já muitos os títulos em que podemos encontrar a dupla de pai e filho constituída por Ernesto Rodrigues e Guilherme Rodrigues, este destaca-se pelo facto de a eles se juntarem dois músicos que, apesar dos efeitos da pandemia, vêm conquistando um lugar próprio (e bem merecido) no circuito nacional da livre-improvisação, a pianista Mariana Carvalho e o baterista/percussionista João Valinho. Não só, mas também: “Eclipse” tem a particularidade ainda de, nele, o pai Rodrigues surgir não com a sua habitual viola, mas com uma harpa ligada a dispositivos electrónicos.
O que nos traz este disco de estúdio – outra característica distintiva, sabendo-se que Ernesto e Guilherme valorizam as gravações ao vivo – é um enfoque no factor “vibração”. Tudo aqui vibra: as cordas do violoncelo, do piano e da harpa, os processamentos digitais desta última, as peles e os metais da percussão, com a procura dessa dimensão vibracional, da criação de harmónicos e “overtones”, definindo por inteiro a abordagem ultra-minimalista e de “drone music” às duas peças de longa duração reunidas, “Solar Eclipse” e “Lunar Eclipse”. Aqui, os dois Rodrigues estão bem longe das coordenadas do reducionismo ou do chamado “near-silence” que foram, e até certo ponto ainda têm sido, as suas, embora os parâmetros sejam equivalentes: recurso a poucos materiais, exclusiva utilização de texturas, diminuição do volume até ao extremo.
Este vector vibracional acaba por reforçar algo que vem particularizando os dois Rodrigues nestes últimos anos: uma música que é cada vez mais atmosférica (não digo “ambiental” para ficarem bem marcadas as distâncias relativamente ao ambientalismo de Brian Eno), cada vez mais misteriosa e intrigante (servindo bem o tema astronómico escolhido, com recursos que nos remetem inevitável e pluralmente para as abordagens cósmicas de Sun Ra e da tendência por este aberta no jazz, do krautrock que se fascinou pelas estrelas, do black metal mais experimental e abstracto – aquele menos metal e mais black, o black do negrume espacial – e da música electrónica “lowercase”) e cada vez mais imagética (com o tipo de imagens que só a nossa imaginação, mais do que o cinema ou o vídeo com “efeitos especiais”, nos proporciona.
De certa maneira, com as pontes contribuídas por Carvalho e Valinho, é como se Ernesto e Guilherme Rodrigues se cruzassem por meio desta edição com o universo de Rafael Toral. Depois disto, desta inesperada convergência de conceitos e práticas com os desse outro grande nome da música criativa portuguesa, bem que não seria de estranhar uma futura colaboração Rodrigues/Toral. É sempre fascinante quando músicos com percursos tão distintos acabam por se encontrar nos mesmos descampados. Ou, no caso, nos mesmos sistemas solares. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)