Secrets Under Trees cs795

 

 

 

 

 

 

 

 

Podemos encarar “Secrets Under Trees”, do trio formado por Guilherme Rodrigues com Carlos Bechegas e Ernesto Rodrigues, como outra proposta de trânsito labiríntico. Imaginamos (ou somos levados a imaginar) árvores, mas as raízes destas constituem algo que não figuramos, algo que está em baixo do solo e só podemos conjecturar. A combinação de uma flauta (Bechegas) com dois cordofones de arco não é das mais habituais na música de câmara dos séculos XX e XXI, e ainda será menos no âmbito da livre-improvisação, mas podemos rastrear de onde estas organizações sonoras provêm, desvelando pelo menos alguns dos segredos que dão nome ao disco: há algo da Sequenza flautística de Berio, algo de Takemitsu, sobretudo algo das composições para flauta de Emmanuel Nunes, de quem é devedora, aliás, uma boa parte do universo musical de Ernesto Rodrigues. É por isso que a escuta do longo “Despite the Storm” se torna vertical/gravitacional, enquanto a das pequenas peças de “Conundrum” é horizontal: ouvimos para cima e esse ouvir desce-nos para baixo, com as ramadas a empurrarem-nos para a terra. Depois, na tentativa de sentir por inteiro, viramos novamente os ouvidos para o alto. E o que temos é uma música sem origem certa.
De onde vêm estes sons, na verdade? A flauta é aérea, é um instrumento de vento, e as cordas são (de) madeira, são tronco: diferentes naturezas e propriedades que buscam uma relação. Há ventos que vêm da madeira, que parecem emergir dela, e sonoridades de madeira que se evaporam num sopro. Neste labirinto que não vemos, que adivinhamos apenas, só não ficamos mais perdidos porque há algo de muito parado (os labirintos físicos e conceptuais implicam sempre movimento), de muito presencial, a que inevitavelmente nos agarramos: as árvores. As referências a Berio, a Takemitsu, a Nunes, são troncos situacionais, ainda que por mera aproximação. Sem elas, estamos no escuro. É essa a grande oposição entre os dois álbuns: “Secrets Under Trees” é nocturno e “Conundrum” vive da luz do dia. Resulta que tudo é uma questão de luminosidade. Rui Eduardo Paes (Passos na Floresta)